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Uma força-tarefa de executivos da Marítima Seguros dedica-se, nos últimos meses, a uma dupla missão para garantir o futuro da empresa. De um lado, precisa cortar custos onde possível. Ao menos dez filiais foram fechadas recentemente, e funcionários têm sido demitidos. Em outro front, trava contato com grupos internacionais, em busca de um possível sócio, capaz de adquirir até 30% do capital da empresa. A meta é elevar o patrimônio da seguradora em 150 milhões de dólares, quantia suficiente para cumprir as normas da Superintendência de Seguros Privados (Susep) e resguardar o grupo das sanções do órgão fiscalizador, que vão de multa a intervenção.
Fundada em Santos (SP) há 65 anos, a Marítima é uma das maiores seguradoras do País entre as chamadas independentes, ou seja, não vinculadas a um grande banco ou a um conglomerado internacional. A falta de um parceiro de peso torna mais difícil atender às regras do setor. A exemplo do limite de alavancagem imposto às instituições financeiras pelo Banco Central, também as seguradoras precisam manter reservas de capital próprio proporcionais ao tamanho das operações. Uma resolução do Conselho Nacional de Seguros Privados, editada em 2007, estabeleceu um aumento anual para as reservas financeiras do mercado segurador até 2011. Ou seja, para não ter problemas com a Susep, as empresas viram-se obrigadas a crescer – ou então encolher, abrindo mão de praças e produtos.
Uma alternativa é a venda a uma concorrente. Foi o caminho tomado, em dezembro, pela Minas Brasil, comprada pela suíça Zurich. A concentração no setor também foi impulsionada, indiretamente, pelas fusões entre bancos. A união entre Itaú e Unibanco, bem como a compra da Nossa Caixa pelo Banco do Brasil, torna as respectivas seguradoras ainda maiores e mais sólidas.
Em tempos de crise financeira internacional, encontrar no exterior uma seguradora com disposição, ou recursos, para investir em uma concorrente brasileira não é tarefa simples. Basta lembrar que um dos símbolos da eclosão da turbulência nos mercados foi a insolvência da líder mundial do setor, a AIG, que exigiu do governo americano um resgate ao custo de mais de 150 bilhões de dólares.
A Marítima realizou reuniões com um grupo canadense e outro japonês, até agora sem sucesso. Segundo um consultor do mercado de seguros, a recusa dos proprietários da empresa em deixar o comando do negócio seria uma barreira adicional na busca por uma associação. A seguradora é dirigida por Francisco Cauby Vidigal e Francisco Vidigal Filho. Procurada, a empresa não quis se pronunciar, nem desmentiu as informações obtidas pela reportagem.
A Susep declarou não emitir comentários sobre os grupos fiscalizados. Mas o coordenador da Gerência de Acompanhamento de Mercado da autarquia, André Silva Oliveira, explica que empresas com dificuldades de cumprir os requerimentos de capital têm o caso avaliado pelo Conselho Diretor da Susep. Nos casos de risco de insolvência, as seguradoras são enquadradas em planos de adequação, aprovados pela área técnica do órgão.
No Brasil, segundo ressaltam especialistas, não há risco de contágio direto das seguradoras pela crise. Tampouco há o chamado risco sistêmico, tão temido no setor bancário, em que a quebra de um grupo periga arrastar outros à bancarrota, numa reação em cadeia. Em contrapartida, há outra semelhança importante com o mercado financeiro: “A confiança é fundamental”, afirma o diretor-executivo da Federação Nacional de Seguros Gerais (Fenseg), Neival Rodrigues Freitas. “Por isso, ninguém admite que tem problemas.”
De acordo com Freitas, 70 seguradoras realizaram operações de aumento de capital até o início de janeiro, quando entraram em vigor os novos limites. Em conjunto, essas empresas elevaram seus recursos em 27%, de 14,2 bilhões para 18 bilhões de reais. A expectativa da Fenseg é que, apesar do impacto da crise, o mercado de seguros tenha fechado o ano passado bem perto dos 17% de crescimento registrados em 2007. Para este ano, a previsão é de desaceleração, mesmo assim, para um ritmo próximo de 10%.
Nos últimos anos, o setor de seguros cresceu no Brasil a uma média de 13,3% ao ano, ante 5% do mercado mundial, de acordo com o professor da Escola Nacional de Seguros (Funenseg) Gustavo Mello. Para ele, esses dados somam-se a iniciativas como a abertura do mercado de resseguros e a criação de novas modalidades de apólices para tornar o País atraente para grupos estrangeiros. “Desde outubro passado é permitido vender por aqui seguros contra sequestros, um produto muito comercializado na Europa e nos EUA, mas ninguém manifestou interesse até agora”, cita.
Oliveira, da Susep, diz que um estudo feito há dois anos pela entidade apontou que a concentração do mercado, no Brasil, é menor do que no restante da América Latina. A maioria das novidades em produtos e serviços fica por conta de seguradoras internacionais. “Nos últimos anos, assistimos à entrada de algumas empresas estrangeiras especializadas em seguro de crédito, com planos ambiciosos. Mas é claro que os ramos massificados exigem escala de distribuição, o que se coloca como uma forte barreira à entrada de novos concorrentes.”
A dose de conservadorismo nas operações locais é explicada, em parte, pelos prejuízos registrados pelos grupos internacionais em apólices de risco dificilmente mensurável. Um bom exemplo é o do seguro de responsabilidade civil de executivos, fonte de grandes prejuízos para as empresas do setor nos EUA. Não é mera coincidência que, depois da divulgação das perdas bilionárias de empresas como Aracruz, Sadia e Votorantim com derivativos, a Bradesco Seguros tenha decidido fechar essa carteira no início do ano.
Segundo Mello, o rigor das exigências no mercado de seguros brasileiro remonta ao século XIX. Em 1866, um grande incêndio nos armazéns londrinos fez com que as seguradoras estrangeiras levassem para a Inglaterra quase todo o caixa disponível para coberturas no Brasil. “Se os EUA adotassem regras como as nossas, a AIG não teria quebrado”, afirma.
Na avaliação do professor da Funenseg, se há seguradoras com dificuldades para manter as reservas de capital, o motivo está menos relacionado à dureza da legislação do que a questões administrativas. “Quem não se modernizou, não investiu em canais de comunicação e em novos produtos começou a perder clientes para a concorrência”, diz. Outro problema é o que Mello chama de “excesso de generalismo” das empresas do setor. “No Brasil, muitas seguradoras pequenas tentam oferecer uma enorme gama de produtos, quando a tendência mundial é que as concorrentes menores se concentrem em nichos, para se diferenciar das grandes.”
Com sistemas modernizados e um foco bem definido, Mello acredita que não há nenhum obstáculo para que uma seguradora brasileira consiga fechar uma parceria internacional. “O custo de ingressar no mercado brasileiro é pequeno, relativamente ao porte das grandes empresas mundiais. Além disso, são investimentos realizados de olho em horizontes de dez anos, que independem da conjuntura imediata”, explica.
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